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Bem Vindo


terça-feira, 25 de maio de 2010

Sob seu domínio


Vejo-me presa às suas vontades, obediente ao seu mando, pronta a realizar seus mínimos desejos, indagando aqui e ali, tentando descobrir antes dele mesmo o que o fará feliz. Se meu desejo é mais forte, mas a ele atemoriza, estou pronta a contemporizar, para que nada o desagrade. Vivo em busca da sua satisfação, de adivinhar suas emoções positivas, de fabricá-las mesmo, em outros momentos, nem que seja para vê-lo um segundo em paz. Hoje sou seu domínio, robotizada e atenta ao seu comando. Tento em remotas vezes voltar ao que eu era, mas não consigo me reconhecer além dele, além do que me permite ou autoriza que eu faça. E o estranho de tudo isso é que nada, absolutamente nada, me faz mais completa do que viver para ser seu domínio.

Fonte da imagem:www.overmundo.com.br

domingo, 23 de maio de 2010

A indecisão


Preparo-me para uma recepção de formatura.Meu traje tem que ser bonito, único e adequado.Posto-me diante do guarda-roupas para resolver a questão.Pés, mãos, cabelos já foram preparados para a ocasião e não deixaram dúvidas quanto ao estilo.No entanto, o traje, sapatos e bolsas, são a questão principal.Peças e mais peças são provadas por mim. Faço maratona diante do espelho para definir o que combinar com os sapatos vermelhos de salto agulha.O vestido longo, preto, tem pedras cor de mel na faixa da cintura e não cai bem com os sapatos abertos na gáspia. Escolho então a túnica bege com calças tipo pantalona, em tecido de festa e acho que acertei. No entanto os sapatos vermelhos destoam dos frisos marrons na borda inferior da túnica.Após várias outras tentativas, decido-me enfim pela peça única em branco e para combinar com os sapatos vermelhos, orno-a com um cordão comprido e dourado com duas pedras vermelhas na ponta. Olho-me e confirmo que encontrei o modelo acertado.Reparo que a cadeira ao lado está repleta de roupas a serem guardadas e, enfadonhada, lembro-me de outrora, quando não tinha escolhas e era bem mais feliz..

Fonte da imagem:bymarimolina.blogspot.com

sábado, 22 de maio de 2010

O jardim


O que há de mais belo onde moro é o jardim.

O estranho é que apesar de belo, não tem flores.

São folhagens circundando toda a área do pátio.

De todos os tipos, verdejantes, entremeadas aqui e ali por outras folhagens vermelhas.

Formam, em sua imponência, verdadeiros pequenos arbustos.

Desconheço os nomes das plantas, mas todas as vezes em que aqui estou, comparo-as aos meus sentimentos em relação à vida – completos na essência, fracos a qualquer pequena ventania, íntegros no jeito em que se posicionam e esperançosos de alcançar a paz no crescimento vertical dos galhos.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Minha música


Minha música é como eu: calma, em alguns momentos, quase inaudível mesmo, nos dias em que me sinto triste…É rápida, cheia de ritmos diversos e extremamente barulhenta, quando me sinto feliz.Nunca nada se aplicou tão bem a mim, como o “danço conforme a música”. Para mim esse ditado é aplicado, sem constrangimentos.Parece mesmo que me movimento pelos sons, sou uma caixa acústica ambulante.Pensando nisso, relembro meus tempos de adolescente, quando vibrava com os programas de calouros apresentados nas rádios.Sou desse tempo em que, sem Internet, a única forma de decorarmos as letras das músicas era ouvindo os calouros e suas diferentes versões para cada uma delas.Aí viajávamos, literalmente. Eu, particularmente, via-me num palco. Um palco branco e brilhante, onde eu era a estrela. Ali, na sala da minha casa, enquanto limpava os móveis e encerava o chão, só eu reinava aos gritos de bis da platéia, aquela imaginária, que me transformava em estrela singular, como as famosas da época.Sempre foi assim. Música para rir, música para chorar, música para emocionar e eu na cadência do seu ritmo, sempre em compasso com o vibrar da minha alma.Letras de músicas antigas, então, são várias as que me vejo cantando, mesmo sem ouvi-las há séculos.Minha música… qual seria?Acho que não a tenho… procuro em pensamento e não acho… nenhuma em especial… mas todas as que me embalem a alma e mexam com a minha emoção, verdadeiramente.

Fonte da imagem: osmeuslimites.blogs.sapo.pt

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Coitado do meu estômago


Cuido para que a cada dia
Meu jantar seja perfeito
Dele isolo as gorduras
Atenta aos ingredientes...
Como alface, chuchu e vagem,
Arroz com tomate e só,
Viso não ter meu estômago,
Reclamando quiprocós..
Enquanto como, visualizo
Não meu prato ali, de verde,
Mas um baita sanduíche
De três camadas com aliche...
Vou me deliciando com o creme
Mostarda, pimenta e ketchup,
Um patê bem variado, incrementando
Tal peixe.
Do pão, não preciso falar, tem que redondo ser,
Alto, fofo, bem clarinho,
Para eu ter muito prazer.
Sobremesa nem se fala,
Mas dei um jeito para tal
Coloquei no mesmo prato
Balas de coco artesanais.
Embora essas delícias só dançassem
No pensamento, meu estômago,
Coitado, aprontou e ficou doente.

Fonte da imagem: boasaude.uol.com.br

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Meditando para que serve um Plano de Saúde, na sala de espera de um consultório médico


Um grande e comprido corredor nos levava a sala de espera.
Era uma sala retangular e nas paredes entrecortadas pelas portas de cinco especialidades – ginecologia, cardiologia,clínica médica,oftalmologia e endocrinologia – duas fileiras de cadeiras de couro sintético preto, conjuntas em oito, dispunham-se de frente umas para as outras, o que de certa forma, obrigava os pacientes que aguardavam os médicos a se olharem, mesmo sem querer.
Um revisteiro contendo mais folhetos informativos do que, propriamente, revistas, visava entreter os que ali estavam aguardando o chamado, mas de tão velhas, sujas e rasgadas, as poucas revistas, de tanto serem manuseadas mostravam-se desagradáveis ao toque.
Um decalque grande, fixado acima do revisteiro, mostrava um celular e solicitava o seu desligamento no local.
Devido as poucas cadeiras, mais da metade dos pacientes aguardavam em pé, como nós.
De quando em vez, ouvia-se a troca de pernas de alguns, que procuravam naquele desconforto uma forma melhor de posição.
Todos que ali estavam pareciam preocupados e na expectativa da consulta e era difícil distinguir os pacientes para cada sala, embora a diversidade dos consultórios pudesse ajudar nessa adivinhação.
Apenas um dos médicos se utilizava da ajuda da enfermagem para anunciar os pacientes. Considerando que a sala dos enfermeiros ficava em outro corredor, após a saída do paciente atendido, tínhamos que aguardar a vinda da enfermeira que, anunciava um novo paciente. Isto sem dúvida gerava uma morosidade e impedia a desocupação das cadeiras de uma forma mais rápida.
Pelas conversas quase em sussurro notava-se que a maioria tinha marcado seus horários o que não justificava tantas pessoas esperando há tanto tempo.
Se em algumas salas as consultas eram menos demoradas, não ultrapassando mais do que quinze minutos, o consultório da endocrinologia não fazia chamados senão de hora em hora. Estávamos ali, há pelo menos duas horas e meia, já havíamos sido atendidos na cardiologia, sendo o próximo passo a endocrinologia.Faltavam ainda quatro pacientes para essa especialidade, segundo nossa dedução e estimamos pelo menos, mais três horas ali, em pé.
A faixa etária que ali aguardava regulava entre 65 e 80 anos. Várias eram as bengalas de apoio entre as cadeiras e ouvia-se o ressonar de alguns já há algum tempo, o que fazia com que os chamados fossem repetidos por várias vezes. Apesar disso, incapazes fisicamente ou não, ali estavam sozinhos, o que estranhamos sobremaneira.
Nessa altura, ansiávamos por uma cadeira vazia e torcíamos para que as portas se abrissem, devolvendo à rua, pacientes já atendidos.
De repente, dois lugares vagaram e quando num salto só corríamos para elas, uma das portas se abriu e um menino de quatorze anos, acompanhante de sua tia-avó, clamaram pelos lugares, visto que a senhora tinha sido medicado e ali deveria aguardar o efeito do remédio, sob a proteção do garoto que lhe segurava as mãos, acalmando-a todo o tempo.
Continuamos ali, em pé, por mais meia hora, até que fôssemos chamados.
E aí perguntamos – adianta hoje, nesse país, termos planos de saúde e consultas devidamente marcadas?

Fonte da imagem: www.cto.med.br

terça-feira, 18 de maio de 2010

Delírio


É uma pequena padaria.Dessas de bairro pobre, daquelas que, você adivinha, nunca vai se tornar confeitaria.Foi, propositalmente, ali colocada. Ali, bem ao lado de uma escola de adolescentes, os maiores admiradores e consumidores de confeitos e sanduíches (se bem que daqueles bem frugais, pois os requintados vão, à noitinha, no encontro com o “ficante”, buscá-los em qualquer McDonalds ou Girafa’s).É a terceira vez que por ali passo, mas hoje, como se houvesse no ar um ímã e me puxasse, fixo-me próxima ao balcão de pães de todos os tipos. Em pequenas quantidades, devido ao espaço para eles reservado, são de várias qualidades e espremem-se entre si para caberem naquele pequenino balcão aquecido. Até as abelhas, em busca do sabor doce do creme, disputam um lugar ali.Observo que não seguem qualquer regra de marketing e doces com canela e açúcar, misturam-se aos pães salgados cheios de calabresa e queijo ralado, dando um colorido fantástico ao local.A única regra que parecem seguir é a de higiene. A pele bronzeada da balconista sorridente se contrasta com o avental branco, impecavelmente limpo. Uma toalha, igualmente branca, também faz parte do seu adereço e ameaça e indica, aos menos cuidadosos, onde colocar copos já utilizados e guardanapos sujos.Estou ali parada e fascinada, já há algum tempo, e só agora percebo a semelhança dessa padaria com aquela da minha infância. Também lá, os grupinhos da turma lanchavam a cada manhã, no intervalo das aulas.Surpreendentemente, vejo-me, como no passado, isolada em um canto, transportando, só com o olhar, o sabor desejado do pão doce mais bonito para o meu sanduíche caseiro recheado apenas com açúcar.

Fonte da imagem:www.tapera.net