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terça-feira, 30 de junho de 2009

O balconista da mercearia


Somos nós que damos aos lugares o brilho natural ou são os lugares que de acordo com sua performance, mudam nosso estado de espírito?
Eis uma questão que sempre me vem a mente quando passo na porta de uma mercearia próxima a minha casa.
O ponto, por si só, é de destaque, digno daqueles capazes de angariarem só para si, a clientela geral. Localizado na esquina principal, abrange duas ruas populosas. Apesar de ter uma área pequena, todos sabem que lá vão encontrar as miudezas que na hora dos preparos de última hora são imprescindíveis. Ali tudo se mistura, do pão ao sabão em pó, mas parece que as pessoas não se importam muito com o fato. Já na entrada, rente ao único balcão, engradados de refrigerantes de dois litros, quase que impedem a entrada dos clientes, visto que tem que se esgueirarem para atingir o atendente.
Esse, com o sorriso de Monalisa, nunca está a vista e na maioria das vezes, está providenciando a troca de dinheiro na padaria em frente, para consolidar a venda, enquanto o cliente atendido aguarda a sua volta e “toma conta” do negócio. Essa questão, tão repetitiva, demonstra a desorganização do comércio e mostra com firmeza o descomprometimento do balconista com o seu trabalho.
Via de regra, raramente um ou outro cliente, especialmente aqueles que tentam se fazer de amigos, privilegiam-se no “caderno de contas” , também usufruírem do uso do banheiro que, pelo odor, deve justificar a ausência de clientes no local.
Todas as vezes em que por ali passo, observo com detalhe a postura do balconista. Senhor de meia idade, bem apessoado, mas envolvendo em si uma tristeza tamanha daquelas que interferem na nossa energia. Fala baixo, olha o vazio, tem atos mecânicos no embrulhar o produto, abrir a gaveta de dinheiro para dar o troco, etc...
As prateleiras sugerem uma arrumação imediata, embora nunca tenha visto baratas ou moscas, apesar da sujeira, mas ele, o balconista, parece sempre estar brincando de estátua junto a parede, quando presente no local.
Pergunto-me se ele é o dono ou mesmo o que mantém aquele comércio funcionando há tantos anos e pelo visto, sem prejuízos? Não encontro explicação, mas minha mente vaga e com a eterna mania de quem no trabalho selecionava a pessoa certa para cada atividade, imagino o “Lino sorriso” comandando aquela mercearia...

Fonte da imagem: achismo.wordpress.com

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Falando ainda do reencontro com a amiga de escola...


Exatamente há quarenta e quatro anos não nos víamos. Há quarenta e três, sequer nos falávamos.
Favorecidas pelas Comunidades do Orkut nos localizamos.
No último ano do Colegial, nos despedimos como melhores amigas que éramos e não nos reencontramos mais. Um poema de autoria dessa grande amiga, onde a última palavra era meu nome, foi a lembrança física, a me acompanhar. Por anos e anos, guardei-o dobradinho entre as minhas coisas mais queridas, mas o casamento, a mudança de casa, fez com que sumisse de meus olhos. Na minha mente as estrofes, antes recitadas por mim com facilidade, agora que o poema sumiu, parecia forçar o esquecimento.
Lembro daquela semana em que a localizei pela Internet. Com a alegria da certeza de saber que era ela, no e-mail respondido, vieram povoar minha mente todos os repentes da juventude descomprometida e feliz.
Por semanas vivi, aquela volta ao passado, no mesmo estado de ânimo dos quinze anos, todas as vezes que com ela falava pelo MSN.
Esgotamos em demorados papos, a vida vivida por cada uma, sem nada esconder, no período de ausência uma da outra.
Novas alegrias vieram, quando usamos a remessa de fotos e a câmera para nos falarmos ao vivo e a cores.
Vibrei com cada linha por ela escrita, pois sua alma poética se fortificou ao longo dos anos, levando-a até a publicar um livro. Senti de novo a sensibilidade de sua alma, pelos versos profundos e belos, que dirigia aos filhos, sem censura, nas poesias que escondia no fundo da gaveta. Conheci diversos dos seus trabalhos inteligentes, fosse em poesia ou em forma de crônicas. Saboreei diariamente, seu blog, atual, dinâmico, lúcido, perfeito ...
Persegui seu dinamismo, como a me dar expressão, nas coisas do dia a dia.
Por fim, valorizei o doce sabor de uma amizade de infância – aquela real, sem censuras, sem interesses, sem frescuras...
Em vários momentos senti o destino a nos aproximar, depois de tanto tempo.
Agora talvez vocês entendam minha ansiedade, durante esses dias de espera.
Enfim, ontem o reencontro aconteceu...
Como todos os encontros de alma, como tudo o que acontece sem explicação, sem planejamentos revi minha amiga ontem.
Num momento mágico, como se o tempo não tivesse passado, ali estava minha amiga, como há tanto tempo atrás.
Passamos como o tempo, ganhamos algumas rugas, engordamos, deixamos de lado o rabo-de-cavalo, mas ali estávamos nós, como exatamente há tantos anos atrás - certas de que jamais perderemos o que temos de mais profundo em nossas almas – nossa grande amizade.

Fonte da imagem: raquelamiga.blogspot.com

domingo, 28 de junho de 2009

Esperando...


E a minha amiga que não chega, gente!

Meu pigarro aumentou e eu acho que vou estourar!

Todas as vezes que o telefone toca penso que é ela e nada. Tanta gente me ligando logo hoje que eu estou na expectativa.

Também com o aniversário da mãe bombando, não sei nem se virá...

Por enquanto, vou curtindo minha espera, para juntas, voltarmos novamente ao tempo feliz da adolescência.

Fonte da imagem:
mananciaisdeamor.zip.net

sábado, 27 de junho de 2009

Voltando aos tempos de escola...


Vivo hoje a expectativa de um reencontro com minha melhor amiga de escola. Exatamente quarenta e quatro anos nos separam. E foi sem querer, como se fora uma obra do destino, que a achei na Internet. Desde então, há mais ou menos um ano, vimos nos falando e vendo pela web cam e, logicamente, recordando mutuamente os momentos e situações presas em nossa mente, em época tão pueril de nossas vidas.

Amanhã, depois de tanto tempo, estaremos juntas e ao vivo e a cores, nos encontraremos.

Uma coisa, no entanto, chama minha atenção nesse momento tão especial - vejo-me repetindo um tique nervoso (um pigarro na garganta) que era presente nos dias de prova, quando a ansiedade tomava conta de mim.

Já lá se vão muitos anos e muitos e muitos fatos ocorridos, cheios de momentos de tensão, expectativa ou alegria esfuziante e nunca mais esse "pigarro" apareceu sorrateiro, para me fazer pensar.

Engraçado agora, quando o retorno do passado se faz presente, ele, o "pigarro" emoldurar a ocasião...

Fonte da imagem: estt8.blogspot.com

sexta-feira, 26 de junho de 2009

O Natal está tão longe e olha eu, já pensando nele...


Quando o Natal se aproxima os mesmos arroubos de outrora, ao visualizar mentalmente a mesa da Ceia, fazem bater meu coração. Tenho ou não tenho? Quase que sem sentir, corro e pego papel e lápis, meu acervo predileto de livros e recortes com receitas diversas e para várias ocasiões e divago a respeito. Vou anotando tudo e idealizando o que preparar. Pronto o cardápio, enumero os ingredientes e listo o que comprar, sem sequer me preocupar com o número de pessoas que comigo estarão no tal dia e se vou poder ou não comprar o que listei. O meu sonho, o meu desejo abundante de viver a festa é quem me comanda nesse momento. Ato contínuo, vou até o computador, entro no site de compras habitual, preencho minha lista e não me surpreendo com o valor monetário exorbitante do meu sonho. Nisso tudo, verifiquei que vivi umas três horas por conta da contradição ter ou não ter, fazer ou não fazer… E ao final de tudo, atesto que não importa realizar ou não um sonho, mas arquitetá-lo é o que faz com que vivamos verdadeiramente as suas mais sublimes nuances. Êta contradição!
Fonte da imagem: blogmacao.blogs.sapo.pt

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Vida de aposentado


Como é duro o pão ganhar
Na vida sem trabalhar...
Mas o que fazer se agora,
Já não posso me arriscar ?
Vivi por mais de oito anos
Das rendas que antes juntei
Mas veio despesa extra
E elas eliminei...
Pensei por vezes acertar
Formas novas e economizar
Cortei supérfluos, vaidades,
Presentes deixei de dar...
De nada adiantou...
Cada vez me enrosco mais
Em mil e uma armadilhas
E penso que ainda vem mais...
Nas lojas passo correndo
Evito olhar as vitrines
Deixei de ver as belezas,
Mesmo ficando triste...
Há anos guardo o dinheiro
Pra’s coisas mais que vitais
Jantares, festas, berloques,
Deixaram de ser normais...
Vivo na expectativa
De na loteria acertar
Só espero conseguir logo,
Dinheiro pra’ poder jogar !
Fonte da imagem: mudafcul.wordpress.com

terça-feira, 23 de junho de 2009

A surpresa geral


Aparentemente ele chegou como menino de igreja – serviçal e solícito ao extremo – absolutamente preocupado em atender com a maior presteza aos condôminos do prédio.
Aos poucos foi ganhando a confiança geral e exercitando sua habitual esperteza, foi se beneficiando de agrados e favorecimentos de grande parte dos habitantes do local.
Sua rotina diária, prescrita pelo síndico, não lhe dava tempo para folgas, pois entre suas tarefas fixas estavam a entrega dos jornais nos apartamentos, a limpeza dos corredores e escadas, a lavagem dos banheiros, o armazenamento do lixo geral e sua retirada para a área de evacuação , além da varrição do pátio e garagens.
Não sabemos como, apesar dessa rotina pesada, permanecia fixo, durante quase todo o expediente, no quartinho dos empregados. Via-se que cultivara com muita rapidez a amizade de várias faxineiras que o visitavam em rodízio, ao longo do dia. Tal local situava-se de forma discreta, numa área um pouco retirada, de forma que só alguém bastante curioso e atento iria dar atenção ao fato.
No entanto, um casal de idosos aposentados que fazia de sua varanda sua sala de estar, tamanha a freqüência com que o fato se dava, começou a reparar as entradas e saídas das empregadas domésticas no tal quartinho.
Umas traziam lanches embrulhados, outras verdadeiro almoço em marmitas,bem como refrigerantes em litro e outras ainda, camisas nos cabides, passadas com o maior esmero.
Sem chamar a atenção do síndico e de outros empregados, o casal passou a fiscalizar com insistência, os serviços do tal faxineiro e de pronto, constatando que deixavam muito a desejar, iniciaram um exército de reclamações em cima do síndico que não lhes deu ouvidos, achando-os por demais exigentes.
Sem as ações positivas esperadas, reuniram-se com um grupo de moradores respeitados e usaram dos livros de reclamações da administração, o que gerou uma assembléia extraordinária onde o grupo conhecedor da questão, convocou também os patrões das empregadas domésticas envolvidas.
Posteriormente, os patrões mediante o que ouviram na assembléia, verificaram armários e dispensa de suas casas, constatando grande baixa nos estoques e ao confrontarem contas de energia elétrica comprovaram a elevação dos valores.
Decidiram, quase por unanimidade, dispensar suas empregadas, alegando crise financeira, desemprego, etc.
Questionado quanto ao empregado relapso o síndico não aceitou fazer o mesmo, dizendo que as visitantes eram de maior idade e se ali permaneciam não era culpa do empregado do prédio.
Às indagações de serviço mal feito e vadiagem, respondeu que não era motivo de demissão.
No entanto, foi grande a devastação e surpreendentemente no dia seguinte à reunião, o silêncio era geral no prédio e mesmo quem não compareceu à Assembléia,cochichava pelos corredores que algo de muito sério teria acontecido.
Foi aí que ficamos sabendo de um telefonema da Administradora informando sobre o pedido de demissão do faxineiro. Contaram que ele antes de sair no dia anterior, fez questão de divulgar que era o agenciador do síndico que usava o dinheiro do condomínio, emprestando-o a juros às empregadas e a outras pessoas.
Cada vez mais me convenço de que gente boa e honesta hoje em dia é como agulha em palheiro. Muito difícil de encontrar!

Fonte da imagem: www.faxina.com.br

segunda-feira, 22 de junho de 2009

O melhor é não fazer planos...


Hoje, creio firmemente que o melhor na vida é não fazer planos.
Vivê-la, simplesmente, ao sabor da maré é a grande sabedoria.
Não é fácil chegar a essa conclusão.
É preciso termos tido, por inúmeras vezes, planos derrubados por acontecimentos imprevistos.
Sejam de que ordem forem os prognósticos, hoje tenho certeza de que eles não se dão na medida do nosso desejo.
Parece mesmo que os anjos tecem suas teias diversamente da nossa vontade.
Às vezes, bate um desejo bobo de, ao acordar, sair para uma volta no quarteirão. Mas eis que, de pronto, de supetão, algo acontece, fazendo com que o impedimento esteja presente.
De outras vezes, o desejo é requintado. Ao invés de uma volta no quarteirão, clamo por uma ida ao teatro, bem distante de onde moro e planejo fazer-me acompanhar por uma amiga de infância. Considerando a distância e a participação de uma outra pessoa, fico de pé atrás, na expectativa do corriqueiro impedimento e pasmo, porque dessa feita, tudo se cumpre de acordo com o meu desejo.
Passo então a analisar quais as razões de sermos quase sempre contrafeitos em nossas expectativas.
Não chego a nenhuma conclusão, após várias horas na busca de exemplos meus e de outros.
Por outro lado, essa expectativa de que algo contraditório à minha vontade acontecerá, está tão arraigada a minha forma de pensar, que não consigo ficar imune ao negativismo.
Penso mesmo que é essa forma de ver e não os fatos em si que dirigem os acontecimentos.
Penso também que essa incredulidade, como se fosse, pequenas partículas de contradição, vão se cimentando em nossas esperanças, levando situações mais leves a desconfortos emocionais, às vezes, irreparáveis. Será verdade?
Fonte da imagem:gilsonpontes.blogspot.com

domingo, 21 de junho de 2009

Minha música, meu momento!


Este post nos foi sugerido pela blogueira Nade,do Blog Orgulho de Ser.

Gostei muito do tema e resolvi participar também, com muito prazer.


Convidada para esta Blogagem Coletiva, fiquei surpreendida comigo mesma, por não ter especificamente,uma música para determinado momento de minha vida.
Posso atestar que sou musical desde que nasci.
Se é sim, seja ele qual for, me embala.
Confesso que meu sonho principal era ser cantora. Logo, ...
Na adolescência, as músicas, todas as mais tocadas, viviam em meus lábios enquanto trabalhava ou mesmo estudava. Colecionei, ouvi, traduzi, decorei, cantei, todos os inúmeros sucessos americanos que um curso de Inglês editou e comercializou em discos de vinil.
Em todos os momentos importantes, felizes ou cruéis de minha vida, a música esteve em primeiro plano. Mas agora, para determinar aqui, a música da minha vida, não lembro, de pronto, de nenhuma.
Não acredito nessa minha afirmação e só para contrariar rebusco na memória, em segundos, enquanto revivo as passagens de destaque no meu viver e, de súbito, mais uma vez me surpreendo, por encontrá-la.. Ei-la diante de mim e dos meus ouvidos, completa, verdadeira, sutil e real: WHAT A WONDERFUL WORLD.
A história que a permeia é singular, única, sofrida e sentida com todo o fervor. Era eu Gerente de Recursos Humanos de uma empresa de Confecção. Atuante na área há quase vinte anos, era gata escaldada – admitia, demitia quando havia baixa de produção, sem qualquer problema. Mas, justo naquele dia, havia assinado a demissão em massa, de cerca de oitenta funcionários. A vontade de não ocupar aquele lugar na empresa, de não ser a mão que assinou os desligamentos, a grande tristeza de me colocar no lugar daqueles chefes de família, tudo isso me fazia sentir ser a última das criaturas.
E foi com esse estado de espírito que cheguei em casa, depois de rodar de carro por mais de duas horas.
Como para me chamar para a vida, ao entrar em casa, tive a maior das surpresas – meu marido que não havia voltado para a empresa, após uma de suas costumeiras reuniões com a equipe, chegou em casa antes de mim, preparou um jantar a luz de velas e me esperava com o intuito de me surpreender.
Lembro-me que ao ouvir o bater da porta, acionou o controle remoto do som ambiente e a música que se fez ouvir foi What a wonderful world.
A noite foi tão fantástica ao som dessa música que, em cada verso, parecia sentir a minha tristeza, que o fato só foi dividido com o meu marido, dois dias depois.

sábado, 20 de junho de 2009

Mimoso, um gato feliz !


Mimoso era um gato feliz.
Era o único habitante daquela casa grande, além da dona da casa. Dominava tudo enquanto ela estava fora, no trabalho.
Sua rotina era sempre a mesma.
Ao primeiro toque do despertador, espreguiçava-se na almofada verde de veludo, onde dormia, aos pés da cama de Dona Florência. Imediatamente pulava para cima da cama e puxava a colcha, clamando pelos afagos de bom dia. Juntos, seguiam para a cozinha e enquanto a dona da casa ligava o rádio e fervia a água párea o café, ficava aninhado aos seus pés, a espera do leite com miolo de pão.
Já sabia o momento de voltar para a almofada, agora colocada no parapeito da janela, quando Dona Florência pronta para sair, recomendava-lhe a casa e seus pertences.
Ontem, no entanto, sua dona, demorou-se na rua mais do que de costume, fazendo com que na sua chegada rosnasse e pulasse muito de alegria.
Aquietou-se quando percebeu em suas mãos uma maletinha cheia de furinhos em volta. Ao movimento, ouvia-se um pequeno latido, que mais parecia um lamento.
Mimoso observava sua dona preocupado e triste.
Não deixou de perceber que seus cumprimentos ao chegar foram substituídos pelos cuidados e com a apresentação da casa ao novo bichinho. Os carinhos e agradecimentos que recebia diariamente foram trocados pela busca de um pequeno colchonete que a partir dali seria a cama do Pimposo. Era assim que ela o chamava.
O relato de seu dia de trabalho, contado em detalhes a cada noite a Mimoso, foi feito sem cerimônia a Pimposo.
Os dias foram passando e Mimoso, cada vez mais abatido, caiu em depressão, ao ser preterido.
A dona, feliz com a chegada do cãozinho, sequer notou o desatino.
Indignado, Mimoso encheu-se de coragem e decidiu dar o troco.
Pensou em fugir para causar surpresa, mas Dona Florência adivinhou seu esconderijo.
Pensou fugir de verdade, tentando encontrar outro dono que o quisesse, mas o devolviam a Dona Florência, conhecido que era nas redondezas.
Mimoso não sabia mais o que fazer. Amava sua dona e precisava dos seus dengos de outrora.
Pensou subir no telhado, ser içado por bombeiros e na vizinhança causar fusuê. Não conseguiu. Desacostumado há tanto tempo com altura, não teve coragem de ir além das janelas. Mais triste ainda ficou com sua incapacidade e também ao sentir que Dona Florência sequer se dava conta de suas artimanhas.
Se os vizinhos notavam Mimoso cabisbaixo e indagavam Dona Florência sobre o que se passava, ela respondia que a sardinha do almoço havia-lhe feito mal.
Enquanto isso, Pimposo ia crescendo garboso, com seu pelo branco cada vez mais aveludado.
Dia a dia ia nascendo em Mimoso a raiva natural do ciúme.
Domingo chegou e uma buzina de carro chamou a atenção de todos.
Uma menina, acompanhada de sua mãe, soltou do carro e de braços abertos correu em direção a Pimposo, que lhe cobria freneticamente o rosto com suas lambidas carinhosas.
Dona Florência, vindo de dentro com a maletinha, paninhos, escova, sabão e ração nas mãos, entregou-os a mãe da menina que, entre abraços e agradecimentos levou Pimposo embora.
Só então Mimoso tudo compreendeu.
Nesse momento tambores tocavam dentro de sua cabecinha e fogos de artifício desfilavam frente aos seus olhos, fazendo-o feliz de novo.
Só aí viu que sua dona olhava para ele dizendo – agora só nós de novo, hem Mimoso ?
Fonte da imagem : www.baixaki.com.br

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Brincando de fazer paródia...


Nada além,
nada além de uma congestão...
Chega bem,
é demais para meu bom pulmão...

Acreditando em tudo
que a Souza Cruz
mentindo sempre diz
eu vou vivendo assim,
assim,
assim, sem ter nariz...

Se a fumaça,
só me causa entupimento e ardor
é melhor
deixar as piteiras, amor...

Eu não quero e nem peço
que você sinta horror...
Nada além,
do que um simples torpor...



(Paródia da música “Nada Além”, de Custódio Mesquita e Mário Lago)


Fonte da imagem:manonerd.wordpress.com

terça-feira, 16 de junho de 2009

Selo presente


Este selinho ganhei de presente da minha amiga Nade do blog orgulho de ser http://nadejane.blogspot.com/
Recomendo uma visitinha lá.

A ginástica das velhinhas


Faço parte de um grupo de velhotas na faixa de 55/65 anos que, para seguirem a moda e cumprirem o que os clínicos receitam, tiram quase metade do seu dia, na maratona em prol da saúde.
Para começar ao acordar, após os primeiros cuidados com a higiene, troco as roupas de dormir pelo uniforme de ginástica e após o café magro – para justificar a minha necessidade de emagrecer – caminho até a praça principal e lá encontro-me com as quinze colegas, ensaiando exercícios já ministrados pelo instrutor da associação de bairro em dias anteriores.
Afinal, se é para seguir a moda, todas temos que , a exemplo do que ocorria em nossa juventude, exibir nossa melhor performance na concorrência umas com as outras.
Quando a aula se inicia, já quase metade do grupo mostra-se cansada, com a alma saindo pela boca, deixando de lado, forçosamente a capacidade de fazer um bom papel para o instrutor.
Começo a reparar que de umas semanas para cá, o uniforme composto de calça comprida azul-marinho e camiseta branca de meia manga, com o logotipo da associação estampado na frente, apresenta-se agora adornado, segundo sua dona, de uma forma diferente. Umas exibem faixas coloridas na cintura, outras o enfeitam com grandes colares de penas, sem contar ainda com as várias pulseiras plásticas que, em cada braço, lançam no ar música compassada ao ritmo dos movimentos pelas batidas dos pés e mãos.
As calças compridas agora, assumiram comprimentos diferenciados, a fim de mostrarem parte das pernas mais definidas pelo bom resultado dos exercícios.
As blusas, antes tão idênticas no grupo, mesclam-se com camisetas cavadas e tops listrados numa tentativa de diminuírem anos de vida, se possível fosse.
Todas nós, no entanto, beneficiadas com o aquecimento, ao final de cada aula, extrapolamos na medida exata dos sorrisos abertos, das palestras sobre qualquer assunto, enfim da alegria inconfundível de estarmos vivas.
E timidamente eu me pergunto – resistiremos até quando ?
Fonte da imagem: www.arsalgarve.min-saude.pt

segunda-feira, 15 de junho de 2009

A viagem de trem para a terra de ninguém


Já na terceira idade, por um desses imprevistos negativos da vida, fui obrigada a tomar um trem para o outro lado da Cidade. Um local pobre e sem lei.
É comum nos imaginarmos em situações de prestígio, em situações de conquista e elevação, mas dói por demais nos imaginarmos em situações perigosas e desagradáveis.
Por dois dias antes de tomar esse transporte, polui minha mente com historinhas de terror, vivi mesmo um faroeste.Não podia nem de longe me conceber voltando de lá sem adquirir seqüelas.
Abominei minha vida e os fatos que me levaram até lá.
Ignorei que inúmeras pessoas talvez grande parte educada como eu fui, não iam para lá resolver uma questão, mas sim, viviam lá, compartilhavam de tudo aquilo que me desagradou.
Será que mereciam ?
Ao invés de agradecer aos Céus a grande ventura de viver a vida quase toda sem a necessidade desse contato com a miséria e a privação, indignei-me.
Esqueci-me da humildade, esqueci-me da solidariedade, esqueci da minha falta de dificuldade, esqueci-me enfim, de me mostrar humana.
Ciente e apavorada com minha forma de ser, em todo o tempo que transcorreu o trajeto, mais ou menos hora e meia, procurei ser justa com a situação, procurei observar as pessoas, colocá-las no meu lugar e ato contínuo, me colocar no lugar delas.
Espantei-me ainda mais, quando não consegui.
Parecia ter um mundo entre nós.
Difícil, mais que a viagem de trem, foi perceber essa distância, perceber minha resistência e visualizar frente a frente minha petulância em me sentir maior e melhor do que qualquer um.
Mas é verdade !

Fonte da imagem:juntas_somos_uma.nireblog.com

sábado, 13 de junho de 2009

Saudade


Consultando o Aurélio, vejo que o significado de saudade é a lembrança melancólica ou suave de pessoas ou coisas distantes ou extintas. A princípio, me surpreendo e, para ser mais exata, não concordo com esta afirmação. Senão, vejamos: como coisas extintas? Se neste mesmo momento, senti uma tremenda saudade do meu bolinho de fubá e a ele pude recorrer, pois não estava extinto, nem distante? Começo a discordar, quase que pela simples satisfação da discórdia e me atenho a outra saudade, a do cheiro do meu perfume, ali tão presente, diante de mim. Vagueio na minha imensidão de saudades e, para não falar apenas de coisas materiais, aquelas das quais nos acercamos e defendemos, para não perdê-las, e chego a uma saudade de criança, aquela da minha alegria, do meu riso estonteante, sem que soubesse o seu porquê e me pergunto se ele está distante ou extinto. Começo a me perceber, começo a me analisar e chego à conclusão de que ela, a minha alegria, está inserida em meu contexto, pronta a se revelar toda vez que eu assim o permitir. Subitamente, vejo que a saudade é nossa e dela podemos abrir mão ou a trazermos para nós, como algo presente e real, desde que o permitamos. E assim, vejo que ela não existe, pois ao revivermos os momentos queridos, transformamos em real a sua presença. Daí, lanço aqui o meu novo significado para a saudade: impulso de transformar em real tudo aquilo que nos marcou verdadeiramente.

Fonte da imagem: eradaessencia.blogspot.com

quinta-feira, 11 de junho de 2009

A missa


Acabo de sair de uma missa em uma das Igrejas Católicas do meu bairro e não posso deixar de fazer comparações e de aguçar meu enorme senso crítico em razão do que presenciei.
Acho até, que já demos um alto avanço nessa questão, quando deixaram de rezar as missas em latim, mas, no entanto, agora, fora o fato do ritual com o padre de batina , os coroinhas, vários auxiliares e frases repetitivas como - que o Senhor esteja conosco - ele está no meio de nós -poucos são os fatos que nos dizem estarmos assistindo, realmente, a uma missa.
O objetivo da tal missa era dedicá-la aos mortos de sétimo dia e a outros mortos (diversos), pois hoje, só se fazem missas comunitárias.
No entanto, a primeira providência é levantarmos para saudarmos com palmas, o padre e auxiliares que vão celebrá-la.
Antes de qualquer coisa, já devidamente instalado, o padre faz questão de apresentar sua mãe (pasmem!) a toda a paróquia, pois ela veio de uma cidade do interior para visitá-lo e logicamente, como qualquer mãe beata e orgulhosa, dar vivas ao filhinho que se tornou padre, tal qual o seu desejo. Em seguida, mais de cinco minutos do cronometrado tempo em que a missa deve transcorrer, se perdem com uma das auxiliares lendo uma folha quilométrica com os nomes das pessoas beneficiadas – mortos de 30º dia, mortos de 1 ano, mortos de 2 anos, mortos de 10 anos, família Andrade, família Souza e por aí vai...
Enfim, começa a missa e constato que a leitura do dia, sequer faz qualquer menção à passagem, à morte, ao retorno...
Mais de metade da missa é dedicada à José de Anchieta e aos feitos do catequista nos anos de 1500.
Não sinto uma preocupação do padre com as famílias dos mortos, com a necessidade que têm, naquele momento, de uma palavra de conforto, doídos que estão, com a ausência dos seus entes queridos. Nem mesmo, um senhor de meia idade, sentado à minha frente e chorando convulsivamente, lembra ao padre que ali deveria estar sendo rezada uma missa para mortos.
Seguindo o ritual, em alto e bom som, o padre anuncia o ofertório e quase todos os beatos e beatas se dirigem ao altar para depositar moedas e notas de qualquer valor, nas cestas, ricamente preparadas com tecidos rendados, enquanto um cântico de louvor se faz ouvir estridentemente.
Aliás, outra coisa que me chama a atenção é a música e os cantos que ocupam quase dois terços do ritual. Parece que a semente jogada pelo Padre Marcelo proliferou em todo o ambiente e já não se dá mais valor a palavra.
A palavra, propriamente dita, colocada na Bíblia e a palavra do sacerdote, se é assim que podemos chamá-lo.
Para minha surpresa, pois diante de tantas aberrações, não consigo sequer rezar pelo morto em questão, nem pelos meus mortos, a única vez em que o padre se dirige as famílias que ali estão em busca de consolo é naquele momento. Momento muito importante para o padre, não para nós que ali estávamos.
Como se aquilo fosse absolutamente normal, ele pede licença às famílias dos mortos para anunciar o aniversário de uma pessoa da comunidade e pedir a todos que cantem parabéns a você, para a aniversariante, jogando por terra toda a minha crença e a minha religiosidade.
Absurdamente, vejo-me como os outros cantando e louvando aquela aniversariante que não conheço e nunca vi mais gorda, enquanto meu morto, naquele local que julguei apropriado e único para tal, ouviu seu nome apenas uma vez, para, por certo, justificar o valor que tivemos que pagar pela celebração.
Que celebração!
Fonte de imagem: cristaoeoracoes.planetaclix.pt

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Quando fui assaltada


Todas as vezes que observo no meu pulso a marca das unhas cravadas por dois bandidos em um assalto, revivo a desagradável indignação de ser efetivamente roubada no que há de mais sublime em mim: a permissão do toque em minha pele.

Ser arrebatada por estranhos, sentir suas mãos imundas de ladrão mostrando-me minha impotência de reação, foi mais difícil do que vê-los sumir com meus bens materiais.

A perda do que talvez você possa repor dá uma sensação momentânea de vazio, mas aquela marca ali, me dizendo que o fato aconteceu e eu não impedi, ainda causa arrepios em meu corpo e acende cada vez mais o medo, o pavor de que a coisa possa se repetir.

Fonte da imagem: wata-eh-legal.blogspot.com

terça-feira, 9 de junho de 2009

Os meninos e as pipas


Da varanda de minha casa vejo um grupo de meninos, uns crianças ainda, outros bem maiores, em cima de uma laje, num burburinho e agitação que me prende a atenção. É distante, mas aquele grupo de pelo menos dez, agita minha curiosidade. Busco um binóculo de longo alcance e posso observar o vaivém ritmado do trabalho grupal na confecção de pipas ou, como alguns dizem, papagaios. Uns cortam bambus de vários tamanhos, outros enceram os mesmos pedaços de pau, outros preparam as armações, outros separam folhas de papel colorido por tonalidade, outros recortam esses mesmos papéis, outros imprimem desenhos por sobre as folhas, outros colam e arrematam sobras de papéis que envolvem as armações. Lá no fundo, um deles fabrica as rabiolas. São papéis ondulados que, fixos no chão, dançam ao mexer das mãos daquele menino. Fico ali, presa e obcecada por aquela fábrica de sonhos. É verão e os céus começam a exibir aquelas formas coloridas em duelo. A correria das crianças para obter aquelas "voadas" em virtude de cerol mais agressivo do mais esperto pode ser vista por todo o bairro. Não temem os choques elétricos quando tentam resgatar a linha presa aos postes, não temem os carros quando atravessam a via pública e seu olhar está sempre no alto, seja nos movimentos alucinantes para fazê-la voar, seja no percurso que a "voada" fará. Assim, por mais uns três dias sigo aquela fábrica de sonhos e constato que aqueles que fazem não brincam com o objeto de sua produção. Remonto, com esta observação, a um passado não muito longínquo e vejo meu irmão repetindo aqueles mesmos gestos, aos quinze anos, quando fabricava pipas sentado no chão da cozinha e as vendia a um armarinho próximo de nossa casa para ajudar no nosso sustento.

Fonte da imagem: www.luso-poemas.net

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Perfeição


Olho essa boca e, a princípio, num relance imediato, percebo suas imperfeições atuais: lábios menos rígidos, alguns dentes trocados, a própria cor mais desbotada… tudo denotando uma imperfeição, uma diferença, se comparada a essa mesma boca em tempos já idos…

Mas eis que, de repente, como que ao ouvir meus pensamentos e a adivinhar o meu olhar, ela me beija… com ímpeto, com calor, com comando, com a mesma e perfeita docilidade com que um dia me arrebatou, fazendo-me percorrer caminhos ainda não descobertos do prazer divino e sensual. A temperatura é a mesma, o sabor, o mesmo, o requinte, o mesmo…

Aí, então, eu me pergunto: onde fica e o que é a perfeição?

Fonte da imagem: ninaselvagem.spaces.live.com

sábado, 6 de junho de 2009

Paixão


Paixão, pura paixão.

Surgiu de repente, sem que eu esperasse.

Veio arrebatadora,derrubando conceitos antes tão fincados e por demais respeitados na minha história.

Paixão compulsão,que limpa minha mente de qualquer pensamento vão.

Paixão vadia que experimenta e alucina.

Paixão criança que brinca e acalma.

Paixão energia que abre caminhos e briga.

Paixão coração que poetisa a vida.

Paixão certeza que dá alegria e que com a paz culmina.

Assim é minha paixão.

Pura paixão.

Fonte da imagem: delanynurse.blogspot.com

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Alcinda e Lucíola


Não sei como começar, mas me impressiono com o fato de algumas pessoas dragarem, para si, jeitos e trejeitos daquelas que lhe estão mais próximas.

É como um rio que passa, levando no seu percurso as folhas amareladas, as pedrinhas quebradas pelo bater das ondas e o lixo sujo.

É assim o que ocorre com Alcinda e Lucíola.

Diferentes na sua forma de ser, atesto que, de uns tempos para cá, as confundo no falar.

Termos nunca usados por uma vagueiam nos lábios da outra como sua propriedade, com a mesma entonação.

A maneira de sorrir descambada para a esquerda, de uma, hoje, na outra, se repete escondendo a covinha que antes ali realçava.

Não entendo como o ar, tal qual espelho, reflete de uma para outra (e vice-versa) meios e manuseios que, executados identicamente pelas duas, chamam minha atenção com vibração.

Fonte da imagem: avanessaguerragraficos.blogspot.com

quarta-feira, 3 de junho de 2009

As espadas ou os oito irmãos?


Eram oito as espadas. Habitavam a mesma prateleira. De feitios diversos, com ornamentos diferenciados, ali estavam com o único propósito de guerrear e defender.A primeira chegou em tempos plácidos, foi cuidadosamente escolhida. A princípio bastaria só ela. Como não havia guerras, sua finalidade era agradar, servir de exibição e atender aos desejos de posse do seu dono. Assim passou pela vida, sendo aquela cujo trabalho era desdobrar caminhos, às vezes para satisfação própria. Foi lutar, quando raramente era necessário, em local destacado, aparecendo para as outras como sendo atarefada e sofrendo com o seu papel. Tinha o seu valor intrínseco de ser a preferida e de nada mais precisava. Se necessitava de um lustre especial para manter seus dois gumes altaneiros, lá estava seu dono pronto a atendê-la.A segunda também chegou em tempos calmos, embora comprada em oferta de ocasião. Por um longo tempo ficou sem a oportunidade de guerrear, até que, surgindo tempos bravios, lembrou do seu papel e iniciou estudos e mais estudos no seu aperfeiçoamento. Não tinha dois gumes como a primeira, mas mais ciente do seu papel, necessitava exibir a melhor performance pelas duas. Foi assim pela vida, até encontrar um espadachim que a dominasse e a impedisse de exercer seu papel tão bem aprimorado.A terceira chegou para compor o quadro. Afinal, a primeira tinha dois gumes e era toda trabalhada, uma peça de raro valor, talhada em manhas e artimanhas; a segunda, especial na forma com que se lançava na luta, carecia de uma terceira, não tão bem facetada como a primeira, mas que fosse mais atuante (mesmo com apenas um gume), pois os mares já estavam bravios. Passou pela vida fiel ao seu propósito e, principalmente, fiel ao que lhe pediu seu dono. Se decidia ir por caminhos mais fáceis na luta, voltava a se conduzir da forma com que o seu dono pedia, somente para lhe ser fiel. Guerreou até o fim pelo simples prazer da luta, pelo simples prazer de defender direitos e defeitos do seu dono e por muito tempo buscou, fora do seu domínio, outros campos para guerrear. Mostrar sua fidelidade ao dono era o seu mais crucial desejo.A quarta chegou em momentos de vez em quando bravios, mas relutou em ser espada. Era plácida, quieta, alheia a tudo e não queria ser reconhecida como uma espada. Sua forma despojada, chata e larga dava trabalho ao espadachim, como a lembrá-lo a todo momento que não era hora de lutar. Mas a terceira, que reinou junto com as duas primeiras por um longo período, a forçava a exercer o seu papel, o que era mais do que compreensível. Assim, aos poucos, foi desenvolvendo sua condição de espada. Seu dono não necessitava de sua defesa, tinha as outras três, e assim ela se aquietava no seu canto, exibindo em outros momentos a revolta natural por não lutar. Assim viveu, tentando entender o porquê da luta, pois era tão penoso e trabalhoso... Se pudesse escolher ia se enfeitar e ornamentar o armário e as outras. Ensinaria seus dengos e suas peripécias no ar, nos torneios lúdicos.Mas aí, então, chegou a quinta, logo em seguida, de súbito. Não importava se os mares estavam bravios ou não. Compreendeu que, no monte, algo corria sem propósito e com moradia bem próxima da quarta, de pronto percebeu - pois era muito perspicaz - que a quarta era uma inútil e que sem a presença dela próxima, todas deixariam de cumprir seu papel na defesa de seu dono. Tinha uma imponência própria, brilhava e chamava muito mais a atenção quando exibida. Negava-se a ter outro papel que não o de lutar, o de lutar e o de lutar. Seu dono também percebeu que era a mais observada nos torneios e a ela destinou as melhores batalhas, as lutas mais difíceis, aquelas que - ele tinha certeza - nenhuma das outras enfrentaria melhor. E, de batalha em batalha, sua altivez nunca era vencida. Assim passou a vida: guerreando, vencendo e perdendo para ganhar de novo.A sexta veio num tempo mais adiante. Altiva e reticente, de forma diferente das demais, que a estranharam no monte, custando a reconhecê-la como parte do acervo. Veio em tempos mais que bravios, mas discordando da maneira quase parecida de todas guerrearem. Tentou mostrar laçadas diferentes, movimentos únicos e especiais, mas não encontrou seguidoras e rumou para outros territórios, sem, contudo, deixar de cumprir seu papel na defesa do seu dono. Assim viveu, cônscia do seu acerto por desse jeito se conduzir.A sétima, ah, a sétima... Essa chegou quando seu dono precisava escolher uma em primeiro plano. Estava envelhecendo em mares turbulentos e as outras espadas já apresentavam ranhuras e amassados que dificultavam a luta. Lutavam entre elas com afinco para se fazer ideal perante o dono. Chegou a sétima e identificou o desejo do seu dono, de pronto. Não titubeou. Deu provas de sua capacidade de defesa, não só do seu dono, mas cuidou para que as outras espadas fossem poupadas das lutas mais árduas e difíceis. Não foi difícil para o monte se aperceber do seu papel. Umas lutaram em se fazer a escolhida, outras aceitaram com satisfação sua proteção, outras fingiram estar atuantes para não desagradar ao dono que, notando sua perspicácia, elegeu-a sua favorita. Afinal, nunca nenhuma das outras espadas captou a maneira com que ele queria a luta, como ela, a sétima. Assim viveu até o fim: no monte, com o monte e para o monte.Mas seu dono, não satisfeito com o acervo, passados alguns anos, aceitou de presente uma nova espada. Tinha o objetivo de renovar o monte, era brilhante, com dois gumes afiadíssimos, pequena, mas carecia de ensinamentos especiais de todo o acervo para cumprir seu papel de espada. Veio em tempos menos bravios; com tanta espada pronta a defender seu dono, caminhou em terras outras para adquirir novos conhecimentos. Verificou que a luta deveria ser silente, sem estardalhaços, os golpes deveriam ser imperceptíveis para atingir o atacado e, mesmo sendo a última do acervo, tentou mostrar seus achados ao monte. No entanto, todas, ao longo da vida, já haviam incorporado atitudes próprias, calcadas na vivência da defesa particular do seu dono. Assim, recusaram mudar, mais uma vez.Hoje, seu dono não mais existe e não há necessidade de lutas. Como deixar de ser quem se tornaram? Acho que, por isso, o monte luta entre si. Mas até quando?

Fonte da imagem: canaldoconhecimento.webs.com

terça-feira, 2 de junho de 2009

Desespero


Misturo-me às pessoas, na ânsia de descobrir o porquê do tumulto.

Vejo-me adentrando porteiras desconhecidas, sem temer.

Sinto-me forte e capaz, por ir em frente.

Vozes irreconhecíveis gritam ao mesmo tempo em que outras vozes choram e pedem socorro.

Nada me detém na compulsão da descoberta.

Meu medo habitual, como que tomado de uma força superior, transforma-se na coragem maior e me surpreende.

Vejo-me ali, entre sangue e desespero, e tenho a plena consciência de que não sou eu.

Como outras mãos caridosas, trabalho e ajudo outras pessoas a se desvencilharem de outros corpos e destroços para assim ganhar de novo a própria vida.

Sinto-me, em meio a tanta desgraça, como um animal abatido pelo caçador, no exato momento de sua morte.

Sinto-me nada, enquanto ali, nesse lapso de tempo, sou tudo.

Fonte da imagem: palavrasadiadas.blogs.sapo.pt

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Desencontro


Marcamos, “eu” e “meus desejos”, um encontro matutino num dia de sol forte.

Sugeri o horário do almoço e o local - o Bar Felicidade - por razões nossas.

Percebi, quando falamos a respeito, que “meus desejos” estava relutante sobre o local e o horário.

Parecia preferir um encontro vespertino, perto do pôr do sol e na hora do rush, quando o burburinho dos passantes em frente enchia o local de vida.

Depois de muita discussão, ficou resolvido entre “eu” e “meus desejos”, que eu definiria o horário.

“Eu”, quase convencida de que deveria concordar com “meus desejos”, tentei alterar o horário do encontro, mas “meus desejos” quis mantê-lo na forma da minha decisão.

Eis que, chegado o dia do encontro, “eu”, pensando que atendi “meus desejos”, compareci ao bar na parte da tarde, quando “meus desejos” tinha seguido para lá pela manhã.

Desde então se instalou o desencontro entre nós.

Fonte da imagem: bolsoderecuerdos.wordpress.com