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Bem Vindo


terça-feira, 9 de junho de 2009

Os meninos e as pipas


Da varanda de minha casa vejo um grupo de meninos, uns crianças ainda, outros bem maiores, em cima de uma laje, num burburinho e agitação que me prende a atenção. É distante, mas aquele grupo de pelo menos dez, agita minha curiosidade. Busco um binóculo de longo alcance e posso observar o vaivém ritmado do trabalho grupal na confecção de pipas ou, como alguns dizem, papagaios. Uns cortam bambus de vários tamanhos, outros enceram os mesmos pedaços de pau, outros preparam as armações, outros separam folhas de papel colorido por tonalidade, outros recortam esses mesmos papéis, outros imprimem desenhos por sobre as folhas, outros colam e arrematam sobras de papéis que envolvem as armações. Lá no fundo, um deles fabrica as rabiolas. São papéis ondulados que, fixos no chão, dançam ao mexer das mãos daquele menino. Fico ali, presa e obcecada por aquela fábrica de sonhos. É verão e os céus começam a exibir aquelas formas coloridas em duelo. A correria das crianças para obter aquelas "voadas" em virtude de cerol mais agressivo do mais esperto pode ser vista por todo o bairro. Não temem os choques elétricos quando tentam resgatar a linha presa aos postes, não temem os carros quando atravessam a via pública e seu olhar está sempre no alto, seja nos movimentos alucinantes para fazê-la voar, seja no percurso que a "voada" fará. Assim, por mais uns três dias sigo aquela fábrica de sonhos e constato que aqueles que fazem não brincam com o objeto de sua produção. Remonto, com esta observação, a um passado não muito longínquo e vejo meu irmão repetindo aqueles mesmos gestos, aos quinze anos, quando fabricava pipas sentado no chão da cozinha e as vendia a um armarinho próximo de nossa casa para ajudar no nosso sustento.

Fonte da imagem: www.luso-poemas.net

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Perfeição


Olho essa boca e, a princípio, num relance imediato, percebo suas imperfeições atuais: lábios menos rígidos, alguns dentes trocados, a própria cor mais desbotada… tudo denotando uma imperfeição, uma diferença, se comparada a essa mesma boca em tempos já idos…

Mas eis que, de repente, como que ao ouvir meus pensamentos e a adivinhar o meu olhar, ela me beija… com ímpeto, com calor, com comando, com a mesma e perfeita docilidade com que um dia me arrebatou, fazendo-me percorrer caminhos ainda não descobertos do prazer divino e sensual. A temperatura é a mesma, o sabor, o mesmo, o requinte, o mesmo…

Aí, então, eu me pergunto: onde fica e o que é a perfeição?

Fonte da imagem: ninaselvagem.spaces.live.com

sábado, 6 de junho de 2009

Paixão


Paixão, pura paixão.

Surgiu de repente, sem que eu esperasse.

Veio arrebatadora,derrubando conceitos antes tão fincados e por demais respeitados na minha história.

Paixão compulsão,que limpa minha mente de qualquer pensamento vão.

Paixão vadia que experimenta e alucina.

Paixão criança que brinca e acalma.

Paixão energia que abre caminhos e briga.

Paixão coração que poetisa a vida.

Paixão certeza que dá alegria e que com a paz culmina.

Assim é minha paixão.

Pura paixão.

Fonte da imagem: delanynurse.blogspot.com

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Alcinda e Lucíola


Não sei como começar, mas me impressiono com o fato de algumas pessoas dragarem, para si, jeitos e trejeitos daquelas que lhe estão mais próximas.

É como um rio que passa, levando no seu percurso as folhas amareladas, as pedrinhas quebradas pelo bater das ondas e o lixo sujo.

É assim o que ocorre com Alcinda e Lucíola.

Diferentes na sua forma de ser, atesto que, de uns tempos para cá, as confundo no falar.

Termos nunca usados por uma vagueiam nos lábios da outra como sua propriedade, com a mesma entonação.

A maneira de sorrir descambada para a esquerda, de uma, hoje, na outra, se repete escondendo a covinha que antes ali realçava.

Não entendo como o ar, tal qual espelho, reflete de uma para outra (e vice-versa) meios e manuseios que, executados identicamente pelas duas, chamam minha atenção com vibração.

Fonte da imagem: avanessaguerragraficos.blogspot.com

quarta-feira, 3 de junho de 2009

As espadas ou os oito irmãos?


Eram oito as espadas. Habitavam a mesma prateleira. De feitios diversos, com ornamentos diferenciados, ali estavam com o único propósito de guerrear e defender.A primeira chegou em tempos plácidos, foi cuidadosamente escolhida. A princípio bastaria só ela. Como não havia guerras, sua finalidade era agradar, servir de exibição e atender aos desejos de posse do seu dono. Assim passou pela vida, sendo aquela cujo trabalho era desdobrar caminhos, às vezes para satisfação própria. Foi lutar, quando raramente era necessário, em local destacado, aparecendo para as outras como sendo atarefada e sofrendo com o seu papel. Tinha o seu valor intrínseco de ser a preferida e de nada mais precisava. Se necessitava de um lustre especial para manter seus dois gumes altaneiros, lá estava seu dono pronto a atendê-la.A segunda também chegou em tempos calmos, embora comprada em oferta de ocasião. Por um longo tempo ficou sem a oportunidade de guerrear, até que, surgindo tempos bravios, lembrou do seu papel e iniciou estudos e mais estudos no seu aperfeiçoamento. Não tinha dois gumes como a primeira, mas mais ciente do seu papel, necessitava exibir a melhor performance pelas duas. Foi assim pela vida, até encontrar um espadachim que a dominasse e a impedisse de exercer seu papel tão bem aprimorado.A terceira chegou para compor o quadro. Afinal, a primeira tinha dois gumes e era toda trabalhada, uma peça de raro valor, talhada em manhas e artimanhas; a segunda, especial na forma com que se lançava na luta, carecia de uma terceira, não tão bem facetada como a primeira, mas que fosse mais atuante (mesmo com apenas um gume), pois os mares já estavam bravios. Passou pela vida fiel ao seu propósito e, principalmente, fiel ao que lhe pediu seu dono. Se decidia ir por caminhos mais fáceis na luta, voltava a se conduzir da forma com que o seu dono pedia, somente para lhe ser fiel. Guerreou até o fim pelo simples prazer da luta, pelo simples prazer de defender direitos e defeitos do seu dono e por muito tempo buscou, fora do seu domínio, outros campos para guerrear. Mostrar sua fidelidade ao dono era o seu mais crucial desejo.A quarta chegou em momentos de vez em quando bravios, mas relutou em ser espada. Era plácida, quieta, alheia a tudo e não queria ser reconhecida como uma espada. Sua forma despojada, chata e larga dava trabalho ao espadachim, como a lembrá-lo a todo momento que não era hora de lutar. Mas a terceira, que reinou junto com as duas primeiras por um longo período, a forçava a exercer o seu papel, o que era mais do que compreensível. Assim, aos poucos, foi desenvolvendo sua condição de espada. Seu dono não necessitava de sua defesa, tinha as outras três, e assim ela se aquietava no seu canto, exibindo em outros momentos a revolta natural por não lutar. Assim viveu, tentando entender o porquê da luta, pois era tão penoso e trabalhoso... Se pudesse escolher ia se enfeitar e ornamentar o armário e as outras. Ensinaria seus dengos e suas peripécias no ar, nos torneios lúdicos.Mas aí, então, chegou a quinta, logo em seguida, de súbito. Não importava se os mares estavam bravios ou não. Compreendeu que, no monte, algo corria sem propósito e com moradia bem próxima da quarta, de pronto percebeu - pois era muito perspicaz - que a quarta era uma inútil e que sem a presença dela próxima, todas deixariam de cumprir seu papel na defesa de seu dono. Tinha uma imponência própria, brilhava e chamava muito mais a atenção quando exibida. Negava-se a ter outro papel que não o de lutar, o de lutar e o de lutar. Seu dono também percebeu que era a mais observada nos torneios e a ela destinou as melhores batalhas, as lutas mais difíceis, aquelas que - ele tinha certeza - nenhuma das outras enfrentaria melhor. E, de batalha em batalha, sua altivez nunca era vencida. Assim passou a vida: guerreando, vencendo e perdendo para ganhar de novo.A sexta veio num tempo mais adiante. Altiva e reticente, de forma diferente das demais, que a estranharam no monte, custando a reconhecê-la como parte do acervo. Veio em tempos mais que bravios, mas discordando da maneira quase parecida de todas guerrearem. Tentou mostrar laçadas diferentes, movimentos únicos e especiais, mas não encontrou seguidoras e rumou para outros territórios, sem, contudo, deixar de cumprir seu papel na defesa do seu dono. Assim viveu, cônscia do seu acerto por desse jeito se conduzir.A sétima, ah, a sétima... Essa chegou quando seu dono precisava escolher uma em primeiro plano. Estava envelhecendo em mares turbulentos e as outras espadas já apresentavam ranhuras e amassados que dificultavam a luta. Lutavam entre elas com afinco para se fazer ideal perante o dono. Chegou a sétima e identificou o desejo do seu dono, de pronto. Não titubeou. Deu provas de sua capacidade de defesa, não só do seu dono, mas cuidou para que as outras espadas fossem poupadas das lutas mais árduas e difíceis. Não foi difícil para o monte se aperceber do seu papel. Umas lutaram em se fazer a escolhida, outras aceitaram com satisfação sua proteção, outras fingiram estar atuantes para não desagradar ao dono que, notando sua perspicácia, elegeu-a sua favorita. Afinal, nunca nenhuma das outras espadas captou a maneira com que ele queria a luta, como ela, a sétima. Assim viveu até o fim: no monte, com o monte e para o monte.Mas seu dono, não satisfeito com o acervo, passados alguns anos, aceitou de presente uma nova espada. Tinha o objetivo de renovar o monte, era brilhante, com dois gumes afiadíssimos, pequena, mas carecia de ensinamentos especiais de todo o acervo para cumprir seu papel de espada. Veio em tempos menos bravios; com tanta espada pronta a defender seu dono, caminhou em terras outras para adquirir novos conhecimentos. Verificou que a luta deveria ser silente, sem estardalhaços, os golpes deveriam ser imperceptíveis para atingir o atacado e, mesmo sendo a última do acervo, tentou mostrar seus achados ao monte. No entanto, todas, ao longo da vida, já haviam incorporado atitudes próprias, calcadas na vivência da defesa particular do seu dono. Assim, recusaram mudar, mais uma vez.Hoje, seu dono não mais existe e não há necessidade de lutas. Como deixar de ser quem se tornaram? Acho que, por isso, o monte luta entre si. Mas até quando?

Fonte da imagem: canaldoconhecimento.webs.com

terça-feira, 2 de junho de 2009

Desespero


Misturo-me às pessoas, na ânsia de descobrir o porquê do tumulto.

Vejo-me adentrando porteiras desconhecidas, sem temer.

Sinto-me forte e capaz, por ir em frente.

Vozes irreconhecíveis gritam ao mesmo tempo em que outras vozes choram e pedem socorro.

Nada me detém na compulsão da descoberta.

Meu medo habitual, como que tomado de uma força superior, transforma-se na coragem maior e me surpreende.

Vejo-me ali, entre sangue e desespero, e tenho a plena consciência de que não sou eu.

Como outras mãos caridosas, trabalho e ajudo outras pessoas a se desvencilharem de outros corpos e destroços para assim ganhar de novo a própria vida.

Sinto-me, em meio a tanta desgraça, como um animal abatido pelo caçador, no exato momento de sua morte.

Sinto-me nada, enquanto ali, nesse lapso de tempo, sou tudo.

Fonte da imagem: palavrasadiadas.blogs.sapo.pt

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Desencontro


Marcamos, “eu” e “meus desejos”, um encontro matutino num dia de sol forte.

Sugeri o horário do almoço e o local - o Bar Felicidade - por razões nossas.

Percebi, quando falamos a respeito, que “meus desejos” estava relutante sobre o local e o horário.

Parecia preferir um encontro vespertino, perto do pôr do sol e na hora do rush, quando o burburinho dos passantes em frente enchia o local de vida.

Depois de muita discussão, ficou resolvido entre “eu” e “meus desejos”, que eu definiria o horário.

“Eu”, quase convencida de que deveria concordar com “meus desejos”, tentei alterar o horário do encontro, mas “meus desejos” quis mantê-lo na forma da minha decisão.

Eis que, chegado o dia do encontro, “eu”, pensando que atendi “meus desejos”, compareci ao bar na parte da tarde, quando “meus desejos” tinha seguido para lá pela manhã.

Desde então se instalou o desencontro entre nós.

Fonte da imagem: bolsoderecuerdos.wordpress.com