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quinta-feira, 25 de agosto de 2011

O bloco


Estamos no Carnaval.Assumo minha raça africana e vejo-me saltitando feliz no bloco de sujos.Foi o primeiro que passou na rua onde moro, no subúrbio. Devia ter aproximadamente umas quinhentas pessoas. Diferentes umas das outras mas, inexplicavelmente, integradas no sentimento. A atitude geral é única e visa, exclusivamente, jogar para fora emoções reprimidas e alegrias do momento.Ali não existe médico, professor, estudante ou mendigo. Todos querem cantar e pular e eu me junto aos demais, sem sentir.Todos se sorriem, se afagam e se cumprimentam como se fossem amigos de outrora.Reparo, naquele momento, que já percorri duas ou três quadras com o grupo e, extasiada, vejo-me ensaiando passos de porta-bandeira, quando um dos integrantes junta-se a mim para compor o par, usando como estandarte a vassoura do gari.Graças a minha ingenuidade, minhas roupas são comuns, aquelas usadas para ir à padaria à tardinha e quando meu lado inconsciente avisa-me de onde estou, posso desviar-me do bloco pela lateral e retornar a casa, comportadamente, como se em algumas horas eu não tivesse viajado à lua.

(Adir Machado Vieira Queiroz da Silva - abril/2009)

Fonte da imagem:funcab.org

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Feliz aniversário, minha irmã !

Hoje aniversaria minha irmã mais nova.
Nasceu para ser a caçula, para ser cuidada e amparada pelos mais velhos.
Ao longo de sua vida, os presságios daquele dia de forte ventania, deixaram sua marca.
Marcas da decisão, marcas de ação, marcas de quem veio ao mundo para fazer com amor.
Marcas fortes como o vento do dia do seu nascimento, rasgando os céus com a impetuosidade de quem veio com um propósito.
Desde cedo, sua forma de ser não nos deixou vê-la como a pequenina.
Aos olhos de todos, sua força resplandecia, mesmo na timidez que carregava quando criança.
Nós seus irmãos, lembram sempre da promessa que fez na cabeceira de nossa mãe -num dos dias em que ela estava doente - de que seria médica quando crescesse, para descobrir e tratar sua enfermidade.
Promessa feita, promessa cumprida.
Caminhou pela vida amparando-a, medicando-a nos males corriqueiros e em todos os outros que nos tiravam a paz.
É assim com o mundo: -segura e firme -o que faz com que a família siga, sem pestanejar, qualquer conselho seu, seja ele sobre saúde ou não.
Mais do que a médica dos seus pacientes, é a amiga interessada em deixá-los melhor.
Não existem minúcias nos seus diálogos e vive a vida com seriedade, fiel aos seus dignos conceitos, como um livro aberto, que nos dá prazer em ler.
Falar dessa irmã só nesse dia é muito pouco, não por ela ser o nosso porto-seguro, aquela que nos momentos dolorosos e sofrendo conosco, não se dá o direito de mostrar a própria tristeza, tendo como princípio levantar nosso astral, seja com suas frases bem humoradas ou puxando nossa orelha, mas porque nesse dia, nosso coração se enche tanto de gratidão, que nem em todos os dias do mundo conseguiríamos retratar para ela nosso grande carinho.
Parabéns minha irmã Alba. Que o dia de hoje e todos os outros de sua vida tragam para você muita alegria, saúde e felicidade.
Feliz aniversário !

(Adir Machado Vieira Queiroz da Silva - agosto/2010)

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Sonhando com o Copacabana Palace


Há pessoas, na vida, tão tranqüilas que são, que nos enchem de paz e nos fazem sentir absolutamente seguras em sua companhia.É aquele jeito de que tudo está bom.Tudo é perfeito e transformável ao seu belprazer. Parece que o mundo conspira a favor, dispondo tudo ao redor de uma forma magnificamente feliz.Ao chegar na casa dessas pessoas você já sente a boa receptividade no ar. Alguma coisa é nova, e aí você sente que mora mal, tamanha a claridade, a entrada de ar e o sol. Ah! O Sol!Sem exagero, no verão, na sala, se você passar no corpo desnudo um filtro solar ou um bronzeador, vai pegar a cor ideal vendo TV. A sala é ampla e tem dois ambientes, meu sonho de consumo. A decoração de todos os cômodos é alegre como os seus donos e suas paredes são ornadas com quadros multicoloridos, produzidos por uma das moradoras. Ainda na sala temos, a nossa disposição, TV/DVD/som, sem que tenhamos que pular cadeiras para chegar às tomadas.O janelão, razão de eu nomear a casa de Copacabana Palace, deixa à mostra todo o bairro e nos torna, dentro da casa, uma extensão dele, além de nos fazer visualizar, sem esforço, as moradias de, no mínimo, três pessoas conhecidas. Ah! Se eu tenho um binóculo! Garanto que os três, sem saber, estariam participando do meu “Big Brother”.Esse mesmo janelão, à noitinha, empurra para dentro o vento, aquele que me lembra as regiões praianas - seguro, suave e constante - que vem para nos refazer do dia e para ordenar nossos pensamentos inúmeros, quando em contato com seres como os donos da casa. Não sei se a proximidade com a casa de entes queridos ou sei-lá-o-quê, essa casa traz uma calmaria inconfundível.A cozinha, prática e sem as frescuras da época atual, e a variedade de pratos já preparados para a nossa chegada, faz com que nos sintamos em um apart-hotel. Sabe aquela coisa de abrir o frigobar e escolher o que comer na hora que quiser?Banho, sono? Nunca em horários predeterminados, só depois de cumpridas as conversas intermináveis, a ponto de nos deixar sugar aprendizados dos mais variados estilos, surgidos nos longos bate-papos.O estranho é que não há, para fortificar o prazer, praia próxima, danceterias, bares da moda, nem restaurantes aprazíveis. Todo esse glamour está dentro da própria casa. Só o que há e enche o ambiente é a presença e a luz dos donos do local, pessoas felizes e designadas para fazer o bem.Com poucas pessoas assim, no dia-a-dia, tive o prazer e a glória de conviver, mas confesso que um grande vazio se instala em nós, quando deixamos o local, na hora da separação.Foi o que eu mais senti na minha volta para casa, depois de passar quatro dias em perfeito estado “zen”..

(Adir Machado Vieira Queiroz da Silva - abril/2009)


Fonte da imagem:barraleme.com

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Sexta-feira, 13 !


Hoje, ao virar o calendário, deparei-me com a data – sexta-feira, 13.De pronto, veio à minha mente posicionamentos remotos em relação ao dia que, segundo sempre se soube, anunciava momentos ruins.Lembro de uma das minhas irmãs, a cada início de ano, checar o calendário anual e verificar se trazia alguma sexta-feira 13. Lembro também que, sempre próximo a essa data, chamava nossa atenção com prognósticos aterrorizantes sobre esse dia fatídico.Hoje, creio que bem mais madura, isso não mais me afeta, mas, de súbito, como se eu não pudesse contestar, noto que minha postura em relação ao dia vai assumindo, sem que eu perceba, conotações de alerta.Temo iniciar qualquer tarefa prazerosa intuindo que não dará certo.Vejo-me andando de um lado para o outro, sem nada fazer, com medo mesmo de enveredar-me por armadilhas silenciosas enviadas pelo ar.Vejo-me calada, com aquele temor específico de que qualquer som por mim emitido possa traduzir-se em discussão ou mal-entendido.Vejo-me em constante alerta e precavendo-me de qualquer ato desabonador à paz.Meus temores, imaginados esquecidos, tomam força maior ao constatar que além de sexta-feira 13, ainda é dia de lua cheia, o que assinala maiores expectativas negativas.Penso de repente que tudo caminha de acordo com minhas lembranças e tento estabelecer metas reais para o meu dia.Constato, no entanto, que apesar de todos os esforços não consigo dar termo a essa apreensão velada, a essa negatividade firmada em recordações infundadas de muito tempo atrás.Enfim, que a sexta-feira 13 se vá e eu possa voltar a viver sem esses medos.

(Adir Machado Vieira Queiroz da Silva - abril/2009)

Fonte da imagem:umaboapostadepescada.blogspot.com

domingo, 21 de agosto de 2011

Nasceu a princesa !


Nasceu para ser princesa, no mais alto estilo da palavra.Já na barriga dava ares de sua imponência, pela delicadeza e beleza dos trajes que, cobrindo o corpo da mãe, serviam de invólucro para seu porte destacado.Nasceu com o raiar do dia, nas primeiras horas da manhã, quase não dando tempo à mãe e aos médicos para os preparos necessários ao seu nascimento.Esperada que era pela família grande que há muito não ouvia o choro de um bebê, foi anunciada como notícia de jornal pelos corredores da Empresa onde a mãe, na véspera de sua chegada, tinha cumprido longas seis horas extras.- Extra! Extra! Nasceu a princesa!Nasceu forte e decidida, com o narizinho em pé. Fofa, cabelinhos encaracolados, foi se tornando ao longo do tempo a pedra preciosa do grupo. Foi abduzida por todos e para todos, tamanho o seu requinte.Mais crescidinha, na escola seu vocabulário especial, contrário à mesmice dos coleguinhas, chamava a atenção dos mestres que não sabiam o que fazer para retomá-la às bobagens corriqueiras. Sempre amou estudar, ler e pela vida foi trilhando caminhos e estrelando suas peças, sempre com todas as vitórias..

(Adir Machado Vieira Queiroz da Silva - abril/2009)


Fonte da imagem:namoda.wordpress.com

sábado, 20 de agosto de 2011

Cassinha


Candura ela tem demais

Amor então, nem se fala.

Simplória nos atos,

Sempre arrecada carinhos…

Inventa situações e

Não descarta opiniões,

Hoje, ontem, amanhã

Assim será esse anjinho.

(Adir Machado Vieira Queiroz da Silva - abril/2009)


Fonte da imagem:brasilescola.com

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Carnaval


Tinha eu quatorze anos, época em que os hormônios clamam por felicidade.Na semana seguinte seria Carnaval e primas e amiguinhas de melhores posses do que eu, não falavam de outra coisa e, como sempre, já haviam decidido o que fazer e para onde ir naquela longa semana de folga.Só eu e minhas irmãs cumpriríamos a mesma rotina de dias iguais, já que não tínhamos condições financeiras para gastos com lazer.Era Carnaval e eu, mais do que ninguém ficava enlouquecida com os bailes fomentados na mente, na imaginação desenfreada de quem admira a festa.Acho que naquele dia, Deus ouviu minhas preces e fez com que duas das minhas primas mais próximas convidassem a mim e a minha irmã quase gêmea, então com treze anos, para um baile noturno. Não seria perigoso pois todos iríamos com meus tios e era bem próximo de casa, num daqueles clubes familiares criados por moradores do local. Antes que meus pais consentissem – sabia que iriam permitir nossa ida – fiz de relance uma fantasia em torno da questão. Lá, já me vi pulando entre os foliões e chamando a atenção geral com a minha fantasia. No entanto, a fantasia seria um grande problema, já que não possuíamos nenhuma veste que, trabalhada em última hora, pudesse ser transformada em traje carnavalesco.Sem admitir essa impossibilidade, resolvi vestir o meu vestido mais apresentável, verde água, por cima de uma calça preta justa. Colocado por dentro da calça, dobrava-se por cima dela, dando uma aparência de – melindrosa – que, com colares e pulseiras coloridos, nada deixaria a desejar a fantasias mais simples.Fiz o mesmo com o de minha irmã que era de cor rosa. E assim, fomos para o baile.Eu me diverti tanto, tanto, que nem um lanche oferecido pelo meu tio me fez parar de dançar.Nas primeiras horas da madrugada e com o baile terminando, fomos deixadas na porta de casa. Meu pai, avisado com antecedência, abriu a porta em silêncio, para que as outras crianças e minha mãe não acordassem.Minha alegria cessou quando, ao me despir para o banho, deparei-me com o vestido, único traje para as ocasiões festeiras, todo manchado de preto. O mesmo ocorreu com o de minha irmã.Não preciso detalhar o que ocorreu no dia seguinte quando minha mãe viu, nem sobre os castigos que sofremos..

(Adir Machado Vieira Queiroz da Silva - abril/2009)

Fonte da imagem:pcmag.uol.com.br